Embora ainda não exista a garantia de que o período de vazante do Rio Paraguai tenha chegado ao fim, o fato é que o nível do principal rio pantaneiro subiu 12 centímetros na última semana e nesta segunda-feira (12) amanheceu com 1,22 metro na régua de Ladário, que serve como parâmetro para medição das cheias e estiagens na bacia pantaneira. O rio estava baixando desde o dia 16 de julho, quando atingiu seu pico, de 3,31 metros.
Nos anos anteriores, que não tiveram a influência do El Niño, o nível do rio começava a subir, em média, dois meses mais tarde, conforme as medições feitas diariamente pela Marinha.
Em 2025, por exemplo, a vazante se estendeu até o dia 8 de dezembro. Em 2023, o nível do rio baixou até o dia 31 de dezembro e somente depois disso começou a subir. Desde 2018, quando o nível chegou a 5,35 metros, o Pantanal não registra cheia.
E o principal beneficiado com esta abundância de água antes do período em que isso normalmente ocorre é o setor de mineração. Quando o nível na régua de Ladário fica abaixo de um metro, o transporte fica praticamente inviável, já que bancos de areia em pelo menos 18 pontos diferentes do rio tornam-se praticamente intransponíveis.
Nos nove primeiros meses do ano, as mineradoras que operam na região de Corumbá exportaram 8,1 milhões de toneladas de minérios, praticamente tudo pela hidrovia do Rio Paraguai. É o maior volume da história. Nos nove primeiros meses do ano anterior haviam sido escoadas 7 milhões de toneladas.
O projeto de concessão da hidrovia, previsto para acontecer no próximo ano, prevê que obras de dragagem de manutenção sejam feitas para garantir o transporte inclusive durante o período de estiagem, já que a empresa LHG Mining conseguiu licença para aumentar de 12 milhões para até 25 milhões de toneladas o volume de minério extraído por ano nas morrarias de Urucum.
Mas, além de esperar pela remoção dos bancos de areia, a empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista está fazendo investimentos bilionários na mineração. Somente em novas barcaças e empurradores são em torno de R$ 3,7 bilhões. O BNDES concedeu empréstimos para compra de 400 barcaças e 15 empurradores para o transporte pelo rio Paraguai.
Estas novas barcaças têm condições de navegar carregadas em águas menos profundas que as antigas. Hoje, elas precisam 9 pés (2,7 metros de profundidade) para descer pela hidrovia. As novas, conseguem flutuar com seis pés de profundidade, ou cerca de 1,8 metro.
Ou seja, os novos equipamentos precisam quase um metro a menos de água para fazer o transporte de minérios. Sendo assim, cai a necessidade de fazer as chamadas dragagens de manutenção.
A maior parte das oito milhões de toneladas despachadas pela hidrovia foi embarcada no porto Gregório Curvo, no distrito de Porto Esperança, cerca de cem quilômetros rio abaixo da régua de Ladário, onde a Marinha faz a medição que serve de parâmetro para a região pantaneira.
AFLUENTES
E, na região deste porto, no qual a LHG Mining promete investir R$ 1,9 bilhão para ampliar sua capacidade para o embarque anual de 15 milhões de toneladas, está chegando volume extra de água nos próximos dias que não será medida em Ladário.
É que os rios Aquidauana e Miranda, que receberam água muito acima do normal para esta época do Ano ao longo da última semana, desembocam abaixo de Ladário.
Ao longo da última semana o rio Miranda Saiu de 2,10 metros para 6 metros na manhã desta segunda-feira (12). E, o rio continuava subindo e a previsão é de que chegue a 6,5 metros nesta terça-feira. Por conta desta água atípica para esta época, a Defesa Civil de Miranda colocou suas equipes de prontidão para socorrer ribeirinhos que correm risco de terem suas casas invadidas.
Situação parecida ocorreu no Rio Aquidauana, que no último fim de semana chegou perto dos seis metros na cidade com o mesmo nome. Normalmente estas cheias ocorrem somente em fevereiro e março.
Fenômeno parecido ocorreu com o Rio Taquari, que ao longo da última semana trasbordou e alagou milhares de hectares de planícies na região norte do Pantanal.
A água destes três rios chega ao Rio Paraguai alguns quilômetros acima do porto Gregório Curvo, beneficiando de imediato o escoamento de minérios. Por conta disso, a empresa não precisará interromper os transportes neste ano.
E não é somente na régua de Ladário que o Rio Paraguai subiu ao longo da última semana. Nas cabeceiras do rio, na região de Cuiabá e Cáceres, em Mato Grosso, os rios também começaram a subir na última semana. Esta água, porém, leva em torno de dois meses para chegar à região de Ladário.
Nos dois pontos de medição da Marinha abaixo de Ladário, no Forte Coimbra e em Porto Murtinho, os dados também reforçam a tese de que a vazante do rio acabou bem mais cedo que em anos anteriores. No Forte Coimbra o nível subiu 13 centímetros desde o dia 4 de outubro e em Porto Murtinho, 46 centímetros. E a água dos rios Miranda, Aquidauana e Taquari está longe de chegar a estes locais.
